terça-feira, 3 de março de 2009

Johnny Guitar (1954, de Nicholas Ray)



Sessão Nostalgia: Western, um gênero feminino a partir de Johnny Guitar?

Johnny Guitar é um faroeste. E como faroeste, tem mocinhos e bandidos. Mas o que o difere de outros filmes do gênero, produzidos às centenas na época em que foi realizado, é simples até certo ponto: no lugar dos machões, há duas mulheres no comando. Logo no início, um dos personagens diz: “Ela pensa como homem, age como homem, eu perto dela não sou homem”. Ele está se referindo à Viena (Joan Crawford), a dona de um saloom que pretende trazer a modernidade para o vilarejo construindo uma linha férrea. Do outro lado temos Emma (Mercedes McCambridge), a chefona do lugar, grande rival de Viena. Além da disputa pelo poder, as duas têm algo mal resolvido no passado. O embate entre elas cria sequências antológicas e transforma os homens não só em meros coadjuvantes, mas também em fantoches que vão caindo por terra um a um. São os tais “caprichos femininos” dando todas as cartas num mundo estritamente masculino até então. Às vezes há essa ruptura nas artes. Em 1954, ano de realização de Johnny Guitar, ainda não se falava abertamente em feminismo, que iria tomar fôlego mesmo somente na década seguinte. Mas o grande diretor Nicholas Ray foi além e montou um palco onde as mulheres (mocinha mas nem tanto e bandida) pudessem gritar seus direitos. O filme deu margem a grandes estudos e é adorado por cineastas, como Martin Scorsese e François Truffaut, que o considerava "A Bela e a Fera" dos westerns, e aparece em documentários quando o assunto é homossexualidade no cinema. É explícita a paixão que Emma sente por Viena, transformada em ódio e desejo de vingança. À parte há o show das cores: a cor de chumbo do vestuário masculino nos remete à aridez do Velho Oeste; o verde, o branco, o vermelho e o preto da roupa das mulheres se contrapõem a esse universo tão característico desde os primórdios do cinema. Outro destaque é a música de Victor Young, que se tornou um clássico. Sterling Hayden, o “Johnny Guitar” do título, representa o poder do macho numa terra sem lei. Mais do que isso, ele chega para proteger a mulher amada, que abandonara há cinco anos. Mas aqui ele é relegado a segundo plano, mesmo realizando estripulias. Numa delas, brinca: “Eu tinha que fazer a minha parte e virar herói”. A parte do macho, do típico herói das pradarias. De arma em punho, Joan Crawford e Mercedes McCambridge parecem que estão pouco se importando com os homens e suas tiradas heróicas, apesar de se aproveitarem deles em momentos oportunos. São a "Thelma & Louise" da Idade de Ouro do Cinema. Espertinhas!

Principais filmes de Nicholas Ray:

- Juventude Transviada (1955)
- Vitória Amarga (1957)
- O Rei dos Reis (1961)
- 55 Dias em Pequim (1963)



Nenhum comentário:

Postar um comentário